O comando e controle está com os dias contados?

Por Bruno Piai

Seguir à risca, sem questionar, o que gestores determinam que deve ser feito ou constituir uma hierarquia rígida dividida em líderes e subordinados ainda é uma realidade muito presente nas empresas brasileiras, em especial as mais tradicionalistas. Contudo, em meio à entrada de novas gerações no mercado, às mudanças da relação empregado-empregador e a necessidade das empresas assumirem uma postura mais estratégica para se manterem competitivas, esse modelo de trabalho ainda funciona?

Atuante no Vagas.com, empresa que trabalha com uma gestão horizontal – na qual os funcionários têm autonomia em sua tomada de decisões -, a especialista em Relações Humanas da empresa, Lígia Hacker, defende que o modelo possa, aos poucos, ser integrado nas organizações à medida que a gestão vertical – do comando e controle – passa por um momento de ruptura.

“Empresas que caminham para uma estrutura mais horizontalizada talvez já sejam capazes de criar uma liderança mais situacional, que roda conforme as competências de cada um. É uma forma também de amenizar um pouco a opressão do modelo verticalizado. As tomadas de decisão precisam ser feitas de forma mais consensual, para que as verdades das pessoas, o que elas têm a dizer, sejam levadas em conta. É uma saída do ‘manda quem pode, obedece quem tem juízo’”, comenta a especialista.

Lígia aponta, inclusive, que o molde verticalizado pode, muitas vezes, por meio de ações pouco significativas, induzir os profissionais à centralização de poder das empresas.

“O que teve maior destaque nos últimos meses em RH? Empresas autorizando seus colaboradores a trabalhar de bermuda. Isso só mostra a alienação a qual muitos estão submetidos. O profissional está diante de uma situação de opressão, não tendo voz nenhuma dentro de seu local de trabalho, mas acha incrível poder usar uma bermuda no serviço”, destaca.

Para Igor Ferreira, diretor de Recursos Humanos, para que haja mudanças ou uma efetiva transição, é necessário que haja uma ressignificação do trabalho. “As organizações devem mudar de acordo com as experiências que querem promover. O estar trabalhando precisa ser ressignificado. A gente criou um modelo na Revolução Industrial que é acompanhado até os dias de hoje. Uma estrutura capitalista”, comenta. Igor pontua que o processo de trabalho atual cria rótulos que não seguem o conceito de diversidade e inclusão, mas sim de exclusão, pois as pessoas se sentem distantes, excluídas, e não conectadas.

De acordo com Georgette Heineck, coordenadora de Talent Acquisition e Performance da Senior, é fundamental que o RH abandone o pensamento de que “as coisas vão demorar para acontecer”. À medida que a área ainda se mostra, em muitas empresas, distante da Transformação Digital ou atrasada em relação a outros setores, o RH precisa perder a sua aura de passividade. “O RH se prende no ‘vai demorar’ e perde a oportunidade de ter um papel efetivo ou pioneiro em um processo de mudança. Está na hora de deixar de lado a passividade”, orienta. Edna Bedani, gerente geral de ensino do IPL, corrobora a afirmação da especialista da Senior e acrescenta que “muitos profissionais de Recursos Humanos estão desatualizados e não tem paciência com determinadas coisas, como processos que não funcionam, o que leva muitas discussões a não serem levadas para o campo da prática”. Desse modo, o RH para no tempo e não há a concretização do processo de transformação humana, que é gradual.

“Para medir a importância da ressignificação é só a atrelarmos a questão do desemprego. Talvez aquilo que muitos de nós fazemos hoje não vai existir mais. Aquela coisa do ‘põe a faca na boca e dá o sustento da família’ é passado. As novas gerações já trazem essa reflexão consigo, de buscar propósito – sem banalização – procurando por empregos modernos, que lhe deixem satisfeitos e com os quais seja possível ganhar dinheiro”, acrescenta Lígia Hacker. “A gente constrói e desconstrói o tempo todo. Eu, por exemplo, já não vejo outra forma de trabalhar que não seja com uma gestão horizontal”, finaliza

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